domingo, 22 de agosto de 2010

MEDIA CRITICISM - Eleições 2010

Ele, de novo...

Revista Veja chafurda o lodo ao entrevistar ex-sindicalista

Erick Vizoki
Já virou tradição: como um cometa muito próximo, a cada quatro anos, sempre em ano eleitoral, ele ressurge com sua cara de mau para fazer suas surradas “denúncias”, ora contra um, ora contra outro. Figurinha carimbada no meio sindical desde meados dos anos 80, Wagner Cinchetto, o ilustre calhau político da revista Veja , volta às páginas da revista que o adora.
Desta vez (de novo) Cinchetto está contra o PT. E ele faz várias "denúncias", reproduzidas no Jornal Pequeno Online, contra o partido que diz ter ajudado a colocar no poder, na edição da semana passada da revista (edição 2178, 18/08/2010). E diz que tem muito mais informações do que possamos imaginar. E garante: está escrevendo um livro de 600 páginas que deverá ser publicado em breve. Falta só terminar. Ou, quem sabe, começar... Afinal, são 600 páginas, segundo ele.
O fato é que o ex-assessor sindical só aparece na mídia para expor suas ações ou participações em operações sujas, imorais, maléficas. Sempre “denunciando” seus ex-companheiros e empregadores, Cinchetto é a melhor definição e personificação do traidor. De moral torpe, credibilidade abaixo de zero e mentiroso profissional, ele faz o serviço sujo onde for, pela melhor proposta. Assim, onde quer que ele seja visto, uma coisa é certa: tem sujeira no meio.
Nas novas denúncias do paladino da moral e da ética na política, Wagner afirma ter participado de operações e articulações para desmoralizar e minar adversários de Lula na campanha de 2002 pela presidência da República. Em entrevista à Veja ele diz, entre outras coisas, que um grupo de “inteligência” foi montado pelo PT, com o aval do então candidato Lula, para criar dossiês e fazer denúncias fajutas aos outros candidatos.

Maledicência

O detalhe é que suas denúncias não têm credibilidade, porque ele é um sujeito sem credibilidade. Wagner Cinchetto é o tipo de pessoa que ama os holofotes, gosta de sair na foto, de estar na mídia autointitulado-se um “destruidor de imagens” ou o “rei da difamação”, e acha o máximo. E para isso, vale qualquer coisa. Principalmente mentir. Muito. O ex-sindicalista não se constrange em dizer isso a tudo mundo, como se fosse uma qualidade louvável. Ele concedeu entrevista à revista Época (29/05/2006), vangloriando-se de ser um difamador e um profissional da produção de dossiês, um perito da maledicência.
E a Veja, como ele, parece não estar mais dando muita bola para a própria credibilidade. O desserviço que a revista presta aos leitores e à sociedade usando como fonte um indivíduo que passou a maior parte da vida inventando fatos para se promover e para prejudicar quem quer que cruzasse seu caminho, é descer demais o nível. Que a publicação assume posição antilulista e antipetista, todo mundo já sabe. Mas a Veja mancha sua história gravemente quando tenta transformar um caráter anômalo como Cinchetto em um informante confiável para atacar seus alvos ou desafetos.
Cinchetto virou a Lurian da Veja.
Não é possível conceber a ideia de que os jornalistas da Abril não deram nem uma olhadinha no Google para se informar sobre ele e suas declarações. Não é possível que a Veja esteja abrindo mão do bom jornalismo e da imparcialidade em detrimento de sua antiga respeitabilidade e reputação. E não é a primeira vez que o alcaguete dá o desprazer de sua cara nas páginas da revista, sempre com suas “denúncias bombásticas”, e quase sempre em entrevistas ao mesmo jornalista, Policarpo Junior, desde 2001.

Perna curta

Artigo publicado pelo jornalista Leandro Fortes na Carta Capital (17/08/2010) comprova uma das muitas mentiras que Wagner diz para ficar em evidência na mídia e, possivelmente, tentar prejudicar todos aqueles para quem já prestou seus condenáveis serviços.
Fortes contesta a informação de Cinchetto sobre a participação do PT no caso da construtora Lunus, empresa de propriedade de Roseana Sarney, onde foram encontrados 1,3 milhão de reais em plena campanha eleitoral de 2002 para a presidência da República. E se vale de um bom argumento: era repórter do Jornal do Brasil, em Brasília, e foi destacado para descobrir os bastidores da ação policial que, segundo ele, “inusitadamente, havia sido comemorada tanto pelo Palácio do Planalto como pela oposição petista”. Ou seja, é uma testemunha ocular, presente, confiável. “O depoimento do tal sindicalista Wagner Cinchetto à revista Veja, como parte da série ‘grandes entrevistas de dedos-duros do mundo sindical’, tem a pretensão de transformar fatos concretos e apurados numa versão aloprada baseada, unicamente, nos valores invertidos do mundo bizarro em que se transformou boa parte da imprensa brasileira. Trata-se de caso explícito de abandono completo da regras básicas do jornalismo, mesmo a mais primária, a de pesquisar, com um google que seja, aquilo que já foi escrito a respeito”, diz o jornalista da Carta Capital em seu texto.

Mente doentia

Outro exemplo das artimanhas do ex-sindicalista nos é apresentado pelo jornalista Jeferson de Andrade, em artigo publicado no Observatório da Imprensa (17/05/2005). O texto, intitulado “Em minha defesa”, conta as presepadas de Cinchetto em Paraguaçu, cidade no Sul de Minas onde morou por algum tempo, depois de ter saído de fininha de São Paulo e se esconder em Machado, também no Sul de Minas. Naquele município fundou um jornal para tentar extorquir o prefeito da época, José Miguel de Oliveira, e aniquilar o mais tradicional jornal da cidade, a Folha Machadense, através de ataques pessoais e desmoralizantes, com o objetivo de impor sua presença na região, entre 1998/2000. O máximo que conseguiu foi dar calotes e mais calotes em um monte de gente.
Em Paraguaçu, Cinchetto exercitou novamente seu talento de traidor ao trabalhar para Cláudio Alvarenga, ex-prefeito da cidade, e para Nancy Alvarenga, ex-primeira-dama e, na época, prefeita do município. Depois de algumas polêmicas, tentou chantagear os dois, dizendo que denunciaria irregularidades na administração. Irregularidades, aliás, que contaram com a participação ativa do considerado “parceiro”. Jeferson e outros jornalistas do jornal O Cidadão estavam sendo processados por denunciarem a ligação de Cinchetto com a prefeitura de Paraguaçu em operações ilícitas. Ele conta: “O ex-sindicalista, ex-assessor sindicalista Wagner Cinchetto por suas ramificações com a cidade de Machado, vizinha de Paraguaçu, consegue se apresentar à prefeita Nancy Alvarenga para prestação de serviço. Ao seu feitio marginal, produz o panfleto apócrifo difamando políticos contrários à dupla Cláudio Alvarenga e Nancy (...). Com detalhes, o jornal O Cidadão faz divulgação da trama da administração Nancy Alvarenga, ex-prefeita de Paraguaçu. De tudo, resulta uma investigação pela promotoria da cidade. E é exatamente para conhecer o andamento dessa investigação criminal que Rafles Morais se contrapõe ao promotor Eric de Oliveira. Este, ao invés de investigar a figura de Cinchetto, exige do jornal O Cidadão documentações que autorizem o seu funcionamento”.
E é assim o caráter do Sr. Wagner. Mas ele não se contenta em prejudicar apenas políticos corruptos e outros da sua espécie. Jeferson de Andrade nos conta um episódio assustador, que mostra bem como funciona a mente doentia do sujeito: “Cinchetto, após tantas lambanças em São Paulo, envolvido num gigantesco processo por ter denunciado Luiz Antônio de Medeiros, hoje deputado federal, de desvio de dinheiro da Força Sindical, praticamente fugiu para a cidade de Machado (MG), terra natal da esposa. E virou fazendeiro. (...) Aconteceu de seu melhor touro aparecer doente. Chamou o veterinário que diagnosticou tuberculose. O touro teria de ser abatido imediatamente para evitar a propagação da doença não só entre os animais, como também oferecia perigo aos seres humanos que com ele lidassem. Passado certo tempo, o veterinário se encontrou novamente com Wagner e indagou: já sacrificou o touro? Resposta: Ah, que nada, era um desperdício sacrificar. Doei o touro para a festa de São Benedito e com ele o Padre fez o churrasco tradicional para os fiéis. (São Benedito é o santo padroeiro da cidade de Machado)”.

Uma vida de trairagens

Cinchetto é oriundo do lodo político. Entrou para o MR-8, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro, pelas mãos de outro criminoso bem conhecido no meio sindical, Marcos Cará. Os dois se tornaram amigos íntimos e parceiros inseparáveis. Cará era uma espécie de mentor intelectual de Cinchetto. Começaram a montar uma pequena organização para assessorar sindicatos. Cará já trabalhava no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, então presidido por Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão, e que era filiado à CGT – Central Geral dos Trabalhadores.
Os dois, Cará e Cinchetto, começaram a articular a eleição de Luiz Antônio de Medeiros para a presidência da entidade e, assim que foi eleito, trataram de propor algo mais ousado, a criação de uma nova central sindical, apadrinhada por ninguém menos que o então Presidente da República Fernando Collor de Melo: a Força Sindical. A dupla de malfeitores trabalhou para Collor em 1989, na campanha eleitoral contra Lula. Como todo mundo se lembra, foi uma das campanhas mais baixas e perversas já registradas e levadas a público neste país.
Com a Força Sindical a todo vapor, chegara a hora da traição a Medeiros. Cinchetto e Cará passaram a pressionar o presidente da Força Sindical a lhes dar mais e mais dinheiro em troca de seu silêncio. Como houve resistência, passaram para as famosas “denúncias”, sempre com Cinchetto se esbaldando nas capas dos principais jornais e revistas.


Vai entender...

Curiosamente, o ex-assessor fez o maior escândalo, em 1995, ao acusar Medeiros de lhe dever cerca de R$ 300 mil e que queria porque queria esse dinheiro... Mas em 2002 voltou à imprensa, já trabalhando para o PT (segundo ele), para dizer que a Força Sindical lhe oferecera R$ 3 milhões pelo seu silêncio e ele recusou. Outra mentira ou desequilíbrio mental mesmo? Pediu desesperadamente R$ 300 mil e quando lhe oferecem 3 milhões, recusou??? Em 2003, após Lula vencer as eleições, chega a hora de trair os companheiros do PT. Novas tentativas de persuasão e novas denúncias...
Até hoje Cinchetto caminha na obscuridade, em seu ambiente predileto: o esgoto sindical. Alguns sindicatos ainda sentem pena dele, um indivíduo totalmente incapacitado para arrumar um trabalho sério e doam, vez ou outra, uma cesta básica ou algum dinheiro para ele sobreviver. Mas assim que aparece um sindicalista ou político mais ingênuo, despreparado ou desesperado, o “rei da difamação” entra em ação novamente. Ele não pode evitar, faz parte de sua ignóbil natureza. E ele não vai mudar.

Recordar é viver

Em 2008, Cinchetto já não mantinha mais contato constante com Marcos Cará. Se foi ironia do destino ou mais uma de suas participações em outra manobra contra ex-parceiros, não é possível dizer. Mas seu ex-guru, ex-companheiro do MR-8, seu mentor intelectual e melhor amigo Marcos Cará foi vergonhosamente e pateticamente apanhado em flagrante, com sua esposa, a advogada Katia Gomide, na sede do Sindicato dos Motoristas de Campinas, tentando extorquir R$ 600 mil da empresa Master Saúde, que trabalhava com planos de saúde (clique AQUI para assistir ao vídeo). A voz de prisão foi exibida em todos os telejornais, em rede nacional. Eles exigiam o valor em troca de manipularem a categoria profissional em assembleia para votar a favor do convênio entre a Associação das Empresas Permissionárias de Ônibus (Transurc) e a empresa de saúde. Caso contrário, deflagariam uma greve no transporte, prejudicando cerca de 1,5 milhão de pessoas. Quando o casal finalmente pensou que o golpe tinha funcionado, a polícia e a imprensa invadiram a sala onde estavam também o tesoureiro da entidade, Gabriel Francisco Souza, R$ 100 mil, que seriam a primeira parte do acordo, e uma maleta vazia. A advogada Katia Gomide teve duas emoções fortes naquele dia: a primeira ao ver a maleta com os R$ 100 mil (“Tem que tirar uma foto”...) e outra com a voz de prisão (“O senhor vai me algemar, o que é que eu fiz?”).
Esta é uma amostra da escolinha frequentada por Wagner Cinchetto, onde ele se formou. No entanto ele continua livre, leve e solto, teve mais sorte que seu professor. Talvez seja porque publicações como a Veja dão notoriedade e até uma certa blindagem para personagens como esse. O homem vive confessando crimes e mais crimes, publicamente, em nível nacional. Mas, sob a nobre aura da “denúncia”, só os outros são questionados. Ele não. Ou talvez ele mesmo acredite tanto no que diz, que acaba convencendo todo mundo, inclusive a Justiça. Em outra entrevista à Veja (não bastou aquela), em 19/08/2010, ele se defende disparando para todos os lados: “Não sou bandido nessa história. Pelo amor de Deus. Bandidos são eles. Eles querem me sufocar, pegar o Wagner para Cristo. São eles que se envolvem em corrupção, são eles que produzem seus próprios dossiês”.

Em tempo – Apesar de tudo, o casal Cará/Gomide foi inocentado este ano pelo juiz da Terceira Vara Criminal de Campinas (primeira instância), conforme informação de O Globo e reproduzido pelo jornal O Imparcial Online. Como vemos, o aplicado Cinchetto não tem muito com que se preocupar. Portanto, se ele agora estiver trabalhando para algum lado nestas eleições (como parece ter ficado claro, graças à Veja), um deles poderá ser a próxima vítima de suas trairagens. E Policarpo Junior e a Veja estarão lá para registrar novamente, prestigiando o Sr. Cinchetto.

MEDIA CRITICISM - Eleições 2010

A peleja do candidato contra o número 63 Ação movida por vereador contra jornal alfenense não deu muito certo; Folha do Lago propõe, em editorial, lei específica para atuação da imprensa

A capa original da edição 63 do jornal alfenense Folha do Lago e, ao lado, fac-símile do editorial publicado pelo jornal, na mesma edição. Erick Vizoki O vereador alfenense Sander Simaglio Maciel (PV), atual candidato a deputado federal pelo seu partido, entrou com um pedido judicial para que os jornais da cidade de Alfenas (MG) publicassem decisões da Justiça Eleitoral sobre sua candidatura e o resultado de uma ação movida contra ele. Ganhou. E os jornais tiveram que acatar. Em seu site de campanha, o candidato fez questão de capitalizar sua merecida vitória, particularmente sobre o jornal Folha do Lago, em dois links (Notícias/mais notícias), com os títulos "Jornal é obrigado a cumprir decisão da Justiça Eleitoral" e "Jornalista faz retratação pública em favor do vereador Sander Simaglio". A edição a que Simaglo se refere, em sua página online, circulou a partir do sábado 14 deste mês (Ed. nº 63), e as informações divulgadas sobre a decisão estão corretas, em todos os números e informações. Sander está bem assessorado. Mas há omissão de informação, o que não pode ser considerado mentira, e ninguém pode responsabilizar seu assessor por omitir informações (que acabam sendo publicadas pela imprensa) a mando de seu chefe... Nessa tal edição número 63 da Folha do Lago, o semanário cumpriu duas decisões judiciais, de uma só vez, em favor do vereador-candidato, enviadas por e-mail e em nome da Juíza Eleitoral Adriani Freire Diniz Garcia, datado de 04 de agosto de 2010. A primeira decisão favorável a ele diz respeito à publicação do deferimento da candidatura de Sander Simaglio para pleitear a vaga de Deputado Federal, proferido pela juíza Luciana Nepomuceno, do TRE-MG, em 25 de julho deste ano. O comentário no site de Sander sobre a situação: "Com o deferimento do registro de candidatura pelo TRE-MG provado está que o vereador Sander Simaglio é um candidato ‘ficha limpa'". Ok... Mas texto no site não diz que a decisão também incluía a divulgação do nome do partido, número, "e com a opção de nome SANDER SIMAGLIO". A nenhum jornal aos quais foram expedidas cópias da decisão da Justiça Eleitoral de Alfenas, para publicação dessa decisão judicial, foi enviado outro comunicado para que se publicasse também o deferimento das candidaturas dos outros participantes oficiais destas eleições. Além disso, o próprio jornal Folha do Lago já havia publicado, na edição nº 62 (07/08/2010), o nome de todos os postulantes, oficializados pelo TRE, como também seus partidos, assim como outros veículos da cidade. A segunda decisão foi que os jornais também deveriam publicar informação sobre o "ARQUIVAMENTO do procedimento administrativo que determinou a retirada da fotografia do candidato da placa promocional instalada em rua da cidade de Alfenas, por decisão de 29.07.2010 da Juíza Auxiliar do Tribunal Eleitoral do Estado de Minas Gerais, Áurea Maria Brasil Santos Perez (...)". E os jornais alfenenses publicaram, por determinação judicial, a informação de que Sander Simaglio era candidato a deputado federal, pelo Partido Verde, sob o nº 4363 (!), e que sua foto em outdoor para ilustrar a divulgação de um grande evento, criado e organizado por ele, em período eleitoral do qual ele participa como candidato, não era propaganda eleitoral. Publicaram, de graça. Mas a Folha do Lago sofreu um golpe a mais, na mesma semana. Coincidentemente, o jornal teve que publicar também, por acordo firmado na Justiça Eleitoral, "texto se retratando de uma nota, na qual afirmou que o vereador Sander Simaglio foi agraciado com a Medalha 'Presidente Tancredo Neves', Colar Grau Ouro, outorgada pelo Instituto Tiradentes, mediante 'uma pequena contribuição financeira'” (conforme divulgado no site do candidato, acompanhado de um fac-símile da publicação). O acordo ainda previa a entrega de 2 mil exemplares do jornal ao advogado de Simaglio até as 11h do sábado 14/08. O acordo não estipulava, no entanto, qual seria a destinação desses 2 mil exemplares. Só que nessa mesma edição, a 63ª da Folha do Lago, o jornal reagiu denunciando, em sua manchete, uma possível propaganda eleitoral subliminar do candidato Sander Simaglio durante sua tradicional Parada do Orgulho LGBTTS, que reuniu, segundo a imprensa local, cerca de 20 mil pessoas. Se é que se pode chamar de propaganda subliminar um banner com os dizeres "VOTE CONTRA A HOMOFOBIA", pendurado na frente de um trio elétrico, com dançarinas e gogoboys, música muito animada e com um candidato a deputado em cima, comandando tudo isso. A 63 também saiu com um editorial onde defendia uma legislação específica para o trabalho da imprensa, lamentando o fim da Lei 5.250/67, ao invés de sua revisão, e as disparidades legais consequentes dessa decisão do STF. Não se sabe ao certo se as 2 mil edições do número 63 da Folha do Lago entregues ao advogado do candidato foram distribuídas e, se foi, onde e para quem? Na minha leiga opinião, essa refrega entre o candidato Sander e o jornal Folha do Lago resultou numa sinuca: Sander não conseguiu sua propaganda gratuita a contento e o jornal não conseguiu divulgar sua denúncia como deveria.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Cinema

Toy Story 3: me desculpem, somos pioneiros, mas eles têm dinheiro e talento Animação da Disney/Pixar trata brincadeira de criança como gente grande

Erick Vizoki O que os inventores norte-americanos irmãos Wright e “Toy Story” têm em comum? Os dois são uma balela americana. Tanto os primeiros como o segundo viraram mitos americanos de pioneirismo. Os irmãos Wright são considerados pelos seus compatriotas os pais da aviação, os primeiros homens a colocarem nos céus um artefato mais pesado que o ar, os inventores do avião. O resto do mundo sabe que não é verdade, que o mérito foi do brasileiro Santos Dumont. O lendário 14 Bis decolou por conta própria em 23 de outubro de 1906, enquanto o vôo dos Wright nunca foi registrado, a não ser por eles mesmos, em diário próprio, por volta da mesma época. A animação da Disney/Pixar “Toy Story” (1995) foi aclamada, em seu lançamento, como o primeiro longa-metragem produzido totalmente com tecnologia digital, hoje conhecida como animação computadorizada, ou CGI (Computer Generated Imagery). O resto do mundo não sabe, mas não é verdade. E isso graças aos brasileiros, que nunca souberam valorizar os talentos que têm. O primeiro longa-metragem totalmente computadorizado foi produzido no Brasil e se chamou “Cassiopéia”, dirigido por Clóvis Vieira, e foi lançado em abril de 1996. Só que sua produção começou em janeiro de 1992. A partir de janeiro de 1993 foi iniciado o processo de animação. O trabalho de geração de imagens terminou em agosto de 1995. A trilha sonora foi completada em dezembro de 1995. A primeira cópia ficou pronta em janeiro de 1996. Só que não dá pra comparar uma produção feita por uma equipe de três diretores de animação e onze animadores, trabalhando em 17 microcomputadores 486 DX2-66, que custou “apenas” US$ 1,5 milhão, e que levou quatro anos para ser produzido, com uma produção da Disney e da então iniciante Pixar, que investiram US$ 50 milhões quando souberam da produção brasileira. Qual a diferença entre os irmãos Wright e “Toy Story”? “Toy Story” decolou, por conta própria. Preconceitos à parte Apesar de tudo, a primeira aventura da turma de Woody e Buzz Lightyear tem só méritos. Não é porque foi uma superprodução, para a época, que é apenas deslumbre e entretenimento. E não é à toa que a Pixar se consagrou como produtora de ponta de animações computadorizadas. Este “Toy Story 3” (idem, EUA, 2010), que teve lançamento mundial no dia 18 de junho, é tão maravilhoso quanto o longa que deu origem à trilogia (que não estava programada, diga-se de passagem). Desconsiderando-se o falso pioneirismo da animação puramente computadorizada, o argumento e roteiro encantam a todos, das crianças que, se não entenderam a mensagem do filme, pelo menos se identificaram, aos ex-crianças que dormiam abraçados com seus brinquedos na cama. Passaram-se quinze anos desde o primeiro episódio e a nova, e anunciada última sequência, respeitou a linha do tempo. Agora Andy, o dono dos brinquedos entre os quais Woody era o mais querido, seguido pelo astronauta Buzz Lightyear, é quase um adulto a caminho da faculdade e já não curte mais essas coisas de criança. Não que perca a doçura e a fantasia, mas ele cresceu, como todos nós crescemos. Não quero me estender fazendo a sinopse do filme, pois acredito que todos já estão fartos de saber, afinal marketing é o que não falta para uma produção cinematográfica candidata a recordes de bilheteria. Candidata vencedora, deve-se acrescentar. Em seu lançamento, nos EUA, “Toy Story 3” liderou as bilheterias nas 4 mil salas em que foi exibido e conquistou o maior faturamento da Pixar: US$ 109 milhões num único fim de semana. No mundo todo, segundo a revista estadunidense Variety, a produção abocanhou US$ 153,8 milhões. O último maior êxito da produtora foi “Os Incríveis” (2004), que faturou US$ 70,5 milhões. Assim, mesmo passados quinze anos, e aqueles que assistiram o primeiro filme eram ainda crianças ou adolescentes, não deixarão de se encantar, pois esta nova aventura foi feita e pensada também para adultos. Tem até passagens meio sombrias, de suspense, e até tristes (mesmo), mas entremeadas com o já consagrado humor da franquia. Há referências em várias críticas especializadas ao clássico “Os brutos também amam” (1953), por causa da sequência final. Enfim, uma trilogia concluída com chave de ouro, onde cada episódio vale a pena, em uma sequência que faz sentido e que respeita a inteligência e o bom gosto do público. Seja de que idade for. SERVIÇO Toy Story 3 (Toy Story 3, EUA, 2010) Gênero: Animação Direção: Lee Unkrich Elenco (vozes): Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Ned Beatty, Don Rickles, Michael Keaton CURIOSIDADES • Em 15 de janeiro de 2010, o último dia para muitos das 58 pessoas da equipe de animação, o diretor Lee Unkrich liderou uma mini-marcha pelo estúdio composta de duas caixas, dois bumbos, dois macacos gigantes e um Yeti. • 17 animadores de Toy Story 3 também trabalharam na animação de Toy Story 2. Quatro animadores trabalharam na animação de todos os três filmes de Toy Story. • 92854 storyboards foram desenhados durante a produção e, deles, mais ou menos a metade (45516) foram levados ao departamento editorial. O departamento transformou esses storyboards em oito diferentes seleções que foram mostradas para especialistas enquanto o filme estava em desenvolvimento. • Há 302 personagens ao todo no filme. • Há mais de 300 adesivos no quarto de Andy. • Algumas peças de arte penduradas nas paredes do quarto de Andy foram criadas pela coordenadora de arte de Toy Story 3, Erin Magill, quando estava no colégio. • No mural de Andy, encontramos um cartão postal de Carl e Ellie, do longa-metragem “UP: Altas Aventuras“. • Andy tem um pôster pendurado em uma das paredes do seu quarto onde se lê “P.U.”. P.U. quer dizer Pixar University (Universidade da Pixar), um programa de desenvolvimento profissional para os funcionários do estúdio. • Os alfinetes no mapa do quarto de Andy correspondem às cidades natais dos membros da equipe de Toy Story 3. • Em cima do armário de Andy há uma placa da W. Cutting Blvd., a rua onde se localizava a sede original da Pixar. • Escondido no quarto de Andy, há uma dica para um novo personagem de Carros 2, que será lançado no próximo ano. Veja o cartaz dois cartazes de carros que aparecem no filme, que podem ser do personagem Finn McMissile. • Falando em Carros, um dos garotinhos da creche Sunnyside veste uma camiseta que faz referencia ao personagem Relâmpago McQueen. • Além da referencia ao personagem Relâmpago McQueen, durante o filme encontramos mais dois personagens de Carros e um de Procurando Nemo. • Um dos adesivos no quarto do Andy faz referencia ao animado da Pixar Animation Studios, “Newt“, que foi cancelado recentemente. • Vocês notaram a marca das pilhas do Buzz Lightyear? Elas são da Buy n Large, mesma empresa que que criou o robozinho WALL•E. • O número A113, que se refere à sala onde John Lasseter, Brad Bird, Pete Docter e Andrew Stanton estudaram na CalArts, aparece em todos os filmes da Pixar. Apesar dos anos que se passaram, a mãe de Andy não mudou a placa do seu carro, que permanece A113. Porém, Em Toy Story 3, a mãe de Andy tem uma nova placa onde se lê “Tiger Pride,” que se refere a Chagrin Falls, Ohio, cidade natal do diretor Lee Unkrich e do seu mascote do colégio, Tiger. • O caminhão do Pizza Planet, que fez a sua primeira aparição no Toy Story original, já apareceu em quase todos os filmes da Pixar. Ele também aparece em Toy Story 3, proporcionando uma passeio atribulado a alguns brinquedos. • Sid, o garoto que gostava de destruir seus brinquedos em Toy Story cresceu e também faz uma aparição em Toy Story 3, usando a sua famosa camiseta de caveira. Sid é dublado por Erik Von Detten, de 27 anos, que dublou o mesmo personagem aos 13 anos no primeiro filme. Fonte: www.planetadisney.net Assista ao trailr de “Toy Story 3” http://www.youtube.com/watch?v=NzcdlwrztE8&feature=related

terça-feira, 8 de junho de 2010

CINEMA

De Robin em Robin chegamos a mais um...
Ridley Scott inova e se antecede à lenda do (ainda não) ladrão de Sherwood


Erick Vizoki

Robin Hood é um daqueles personagens que ficam no imaginário popular e acabam recebendo as mais variadas interpretações e adaptações até mesmo no cotidiano de muita gente.

A lenda do habilidoso arqueiro que roubava dos ricos para dar aos pobres, criada no século XIII e que vivia na floresta de Sherwood até hoje é influência e motivo de justificativa até para péssimas atitudes (como tirar algo de alguém só porque ele tem sobrando...).

O Robin Hood das telas já foi uma raposa em animação da Disney, um gângster de Chicago vivido por Frank Sinatra, uma moça (!), uma criança japonesa (!!) e até um ladrão que vivia no espaço (!!!).

Agora a lenda do arqueiro mais famoso de todos os tempos volta às telas de cinema na pele do ator neozelandês Russel Crowe, em sua quinta parceria com o diretor inglês Ridley Scott. Tanto ator como diretor têm uma respeitável folha de serviços em Hollywood. O primeiro já abocanhou um Oscar de Melhor Ator por Gladiador (2000) e foi indicado por mais dois papéis em O Informante (1999) e Uma Mente Brilhante (2001). O segundo é responsável por produções marcantes, entre elas Alien, O Oitavo Passageiro (1979) e o cult Blade Runner, O caçador de Androides (1982), além de Thelma e Louise (1991), 1942 – A Conquista do Paraíso (1992), Gladiador (2000), e Hannibal (2001), entre outros. O filme conta também com nomes como Cate Blanchett, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em O Aviador (2005), e do sempre ótimo Max von Sydow, no papel de Sir Walter Loxley, uma de suas melhores atuações em muitos anos.

Como não podia deixar ser, Ridley Scott privilegia as (ótimas) cenas de ação e a direção de atores, mas também faz questão de impor sua marca. Assim como em Gladiador, o diretor se vale do contexto histórico para contar uma história possível, apesar de ser uma lenda.

Em Robin Hood (Robin Hood, EUA/Reino Unido, 2010), Robin Longstride (Crowe) é um arqueiro no exército do rei Ricardo Coração de Leão. Um acaso o coloca de posse da coroa do rei morto e da espada de um de seus cavaleiros, Robert Loxley, que ele promete devolver ao pai deste, Walter (Max von Sydow). A devolução de uma espada valiosa, que poderia muito bem ter guardado para si, fará com que Robin se veja numa situação singular: a pedido de Walter Loxley, vai se passar por seu filho e, portanto, também por marido da viúva de Robert Loxley, Lady Marion (Blanchett). Ali, Robin descobre sua própria história e, com a ajuda de Loxley, relembra a morte prematura de seu pai. A descoberta da trágica história de sua família faz surgir os primeiros lampejos do que viria a ser o mito. Entretanto, esqueçam o Robin Hood da Disney e de Errol Flynn, aquele simpático e “honesto” ladrão vestido de verde ao lado de seus alegres companheiros João Pequeno e Frei Tuck, às voltas com pequenos roubos na floresta de Sherwood. O personagem interpretado por Russel Crowe é inserido meio que na realidade de uma Inglaterra da Idade Média miserável, saqueada por um monarca ambicioso e influenciável, o Príncipe João Sem Nome, que cobra impostos imorais e que sofre por causa da corrupção de um xerife tirânico.

Nesse contexto, o diretor insere o personagem fictício em fatos reais: Robin terá papel decisivo na derrota de uma força francesa que chega por mar, um episódio que realmente aconteceu no fim do século XII e no qual, é óbvio, o arqueiro jamais teve alguma participação. Percebemos, então, que o Robin Hood de Ridley Scott não tem muito a ver com os outros “Robins” fartamente explorados nas telas (apesar de algumas “bizarrices”, conforme relação abaixo). Nesta produção, o personagem ainda não é o famoso ladrão.

Mas o filme termina no exato momento em que ele se torna um fora da lei e finalmente começa a criar seu grupo de “alegres camaradas”. Fica clara a brecha para uma continuação, que pode acontecer ou não. Isso deve depender da resposta do público. Nesse caso, o diretor já tem preparado para Robin outra interferência na história dos ingleses: o ladrão de Nottingham é quem forçará o rei João a assinar a Magna Carta, o que na verdade ele fez, em 1215, para aplacar uma nação à beira da guerra civil.

SERVIÇO
Robin Hood (Robin Hood, EUA/Reino Unido, 2010)
Gênero: Aventura
Direção: Ridley Scott Elenco: Russel Crowe, Cate Blanchett, Max von Sydow, William Hurt, Mark Strong
Duração: 148 minutos
Faixa etária: 12 anos

Assita ao trailer de Robin Hood

http://www.youtube.com/watch?v=EZU1AfNDGds

Os vários Robin Hood

- Robin Hood and His Merry Men (1908)
Primeira aparição do rei dos ladrões nas telas, hoje é considerado um filme perdido.

- Robin Hood (1922)
Filme mudo estrelado por Douglas Fairbanks, foi uma das produções mais caras da década de 20. O primeiro filme a apresentar o arqueiro como o conhecemos hoje.

- The Adventures of Robin Hood (1938)
As Aventuras de Robin Hood, estrelada por Errol Flynn, é uma das mais conhecidas adaptações do rei dos ladrões. Recebeu 3 Oscars (Melhor Direção de Arte, Montagem e Trilha Sonora Original), além de ter sido indicado ao prêmio de Melhor Filme.

- The Story of Robin Hood and His Merrie Men (1952)
Walt Disney não podia ficar de fora e, em 1952, lançou a primeira versão Disney sobre o rei dos ladrões, um musical estrelado por Richard Todd.

- Robin and the 7 Hoods (1964) A primeira adaptação de Robin Hood fora de seu contexto lendário, o (anti) herói agora está na Chicago da década de 30 e é interpretado por Frank Sinistra. Gangues de rua, gansters e violência. Obviamente, trata-se de um musical.

- Rocket Robin Hood (1966-1969) Provavelmente a maior bizarrice com a grife Robin Hood. Uma série animada canadense em que Robin Hood vive no espaço sideral. E ele se chama isso mesmo: Rocket Robin Hood.

- Robin Hood (1973) A adaptação mais conhecida da lenda britânica, a animação da Disney marcou a infância de muita gente e popularizou definitivamente o personagem no mundo todo. Foi o segundo longa animado feito depois da morte de Walt Disney, no período de menor criatividade da história do estúdio. O filme sofreu com um orçamento muito baixo, o que obrigou os animadores usarem cenas já existentes de outros clássicos Disney para compor algumas sequências de Robin Hood.

- Young Robin Hood (1991-1992) Série animada produzida pela dupla Hanna-Barbera. Não é muito conhecida nem muito boa, mas vale o registro.

- Robin Hood no Daibōken (1990-1992) Outra esquisitice da relação: um anime (animação japonesa) sobre o rei dos ladrões! A série possui 52 episódios e apresentava Robin como uma criança.

- Robin Hood: Prince of Thieves (1991) Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões, estrelado por Kevin Costner, é um daqueles ame ou odeie. O filme fez bom sucesso de público, mas não agradou muito a crítica. Entre os méritos estão as ótimas atuações de Morgan Freeman e Alan Rickman e pela famosa sequência da câmera na flecha.

- Robin Hood (1991) Concorrente de baixo orçamento do blockbuster citado acima, essa adaptação não é muito conhecida, mas vale ser lembrada. Conta com Patrick Bergin e Uma Thurman (!) no elenco e mostra uma história um pouco mais realista da lenda de Robin Hood.

- The New Adventures of Robin Hood (1997-1998) Série contemporânea e nos mesmos moldes de Hércules: A Lendária Jornada e Xena: A Princesa Guerreira. Teve 52 episódios, dois atores interpretando o protagonista e não conseguiu tanto reconhecimento.

- Princess of Thieves (2001) Filme para TV que trazia Robin Hood como uma garota, interpretada por Keira Knightley, muito antes de se tornar pirata e conhecer Jack Sparrow.

- Robin Hood (2010) E finalmente, os parceiros de Gladiador se juntam novamente para trazer uma "nova" história de Robin Hood para as telas. Fonte: Blog Isto Era

segunda-feira, 24 de maio de 2010

CINEMA


Em 3D, “Fúria de Titãs” deixa público furioso Produção é refilmagem de clássico dos anos 80 e volta mais violento e sombrio
Perseu enfrenta a mitológica Medusa, que tinha serpentes na cabeça e olhar literalmente "petrificante".

Erick Vizoki 
Quem já tem por volta de 30 anos de idade, provavelmente assistiu, seja no cinema ou na velha Sessão da Tarde, “Fúria de Titãs” e, provavelmente, nunca esqueceu. O filme de 1981, apesar dos pesares, foi alçado à categoria de clássico, mesmo que quase não merecesse (o “quase”, explicarei mais adiante). O remake do épico mitológico grego estreou na sexta-feira 21, em circuito nacional. 

A história de “Fúria de Titãs” (Clash Of Titans, EUA/Reino Unido, 2010) segue a mesma linha de seu antecessor: Perseu (Sam Worthington), filho do deus Zeus (Liam Neeson), é criado entre os mortais e tem sua família consumida por Hades (Ralph Fiennes), o deus do inferno. Assim, Perseu inicia sua batalha contra os deuses, se unindo a Io (Gemma Arterton), sua guia espiritual, ao guerreiro Draco (Mads Mikkelsen) e ao rei-fera Acrisius (Jason Flemyng), na tentativa de salvar sua amada Andrômeda (Alexa Davalos), que deverá ser sacrificada para que os deuses do Olimpo não enviem o terrível monstro Kraken para destruir a cidade de Argos. Dirigido por Louis Leterrier (“O Incrível Hulk”), a produção da Legendary Pictures para a Warner Bros. tenta o que todo remake tenta: superar o original, com promessas de mais ação, mais efeitos especiais e de adequar a obra aos dias atuais. Tudo isso sempre com as melhores intenções, dizem roteiristas, diretores e produtores. 

No quesito ação, efeitos especiais e belas cenografias, o público está bem servido. Como no original dirigido por Desmond Davis, este também deverá ter bastante futuro nas futuras “Sessões da Tarde”, com as novas telinhas HD. Para garantir (ou pelo menos tentar) uma adaptação mais ao gosto da geração “Mortal Kombat” e “Senhor dos Anéis”, o roteirista escolhido foi o novato Travis Beacham, que está entre os que prometeram um tom mais sombrio à reedição do clássico de 1981. 

Mas o filme, por falar em deuses, comete seus pecados. O maior deles é trocar talento e dedicação cinematográfica pela avalanche, cada vez mais comum, de efeitos visuais impressionantes, muito movimento, bastante gosma e os indispensáveis clichês do tipo “não encarem a vadia!”, na sequência onde os heróis enfrentam a mitológica Medusa. E há outro agravante, ainda maior, mas aí a culpa pode ser da megaprodução “Avatar”, que foi concebido para ser exibido em 3D, mas que se deu bem também na versão 2D: Leterrier fez o caminho inverso, produzindo o filme em 2D e depois, devido ao assombroso sucesso do filme de James Cameron, o converteu para 3D, e nesse tipo de exibição deixou o público fulo da vida com o péssimo resultado. Por isso, prefiram a versão tradicional, em 2D, para não passarem raiva. 

Na atuação, à frente do grupo dos bonzinhos está Sam Worthington, o carismático alien azul de Avatar, em mais uma interpretação insossa. Os únicos dois nomes que teriam chances de salvar o filme da negligência total, em termos de boa atuação, seriam Liam Neeson (“A Lista de Schindler”) e Ralph Fiennes (“Harry Potter e o Enigma do Príncipe”), atores experientes que não foram bem aproveitados pelo diretor Leterrier. Enfim, nunca será um clássico como a água da fonte em que bebeu. 

Fim de uma era, começo de outra

 
As lendárias criações de Harryhausen: à esquerda o ciclope de "A 7ª Viagem de Sinbad"; à direita, a famosa sequência de luta com esqueletos em "Jasão e o Velo de Ouro". 

Chegamos às inevitáveis comparações entre remake e original. Se na nova produção falta atuação e sensibilidade, no velho “Fúria de Titãs” (Clash Of The Titans, EUA, 1981) elas transbordavam. Para começar, apenas um nome era suficiente para conjugar gerações diferentes de cinéfilos nas salas escuras: Lawrence Olivier, no papel de Zeus, claro. 

O ator, especializado em papéis shakespearianos, garantia a ida dos adultos apreciadores de bons filmes ao cinema, e o argumento e efeitos especiais traziam a garotada. Além dele, pelo menos mais dois nomes competentes destacavam-se no cartaz do filme e na tela: Ursula Andress (“007 Contra o Satânico Dr. No”), interpretando Aphrodite, e Maggie Smith (atualmente a Profª. Minerva, da série Harry Potter), como Thetis. A trama também envolvia todos os personagens, em um núcleo Zeus-Perseu-Hades. 

Na nova investida, os deuses são quase coadjuvantes. Mas o grande nome, de fato, no filme original, não aparecia na tela. Ele não, mas a sua participação era o verdadeiro espetáculo. Trata-se de um lendário profissional de cinema, o animador especializado na técnica stop motion, Ray Harryhausen. 

A animação stop motion consiste em dar vida a objetos inanimados filmando-os quadro a quadro: para cada segundo de filmagem são necessários 24 fotogramas em sequência para causar a ilusão de movimento. E Ray Harryhausen reinou absoluto em sua época nessa técnica. Nascido em 29 de junho de 1921, ainda criança Ray ficou fascinado pelo trabalho de Willis O’Brien, responsável pelos efeitos especiais de “King Kong” (1933). A partir daí decidiu seguir a mesma carreira e tornou-se o profissional mais requisitado de Hollywood para efeitos especiais em filmes que tivessem criaturas bizarras e monstruosas. 
Entre os grandes filmes que animou estão clássicos como “Jasão e o Velo de Ouro” (Jason and the Argonauts, 1963), “A Viagem de Ouro de Simbad” (The Golden Voyage of Simbad, 1973), e “Simbad e o Olho do Tigre” (Simbad and the Eye of the Tiger, 1977), todos com animações fantásticas para uma época em que a animação computadorizada ainda nem sonhava em existir.

Mas Harryhausen também colocou seu talento a serviço da mediocridade, como em “Mil Séculos Antes de Cristo” (One Million Years B. C., 1966), que também foi exibido na TV com o título “Quando os Dinossauros Dominavam a Terra”. Este filme, apesar de bem feito e com a grife Harryhausen, mostrava duas tribos de homens pré-históricos que lutavam entre si: uma de homens e mulheres morenos, sujos e violentos e outra de pessoas loiras, de olhos claros, limpinhos e bonzinhos. Dada a época, só faltou uma bandeirinha para a tribo loira com os dizeres “Nós somos os ancestrais dos americanos”, e na dos morenos, “Outros”. Além disso, a história colocava homens e dinossauros convivendo na mesma época, numa espantosa barbeiragem arqueológica. 
“
Fúria de Titãs” foi o último trabalho do animador para o cinema. As belas sequências de vôo do cavalo alado Pégaso, a simpática corujinha mecânica Bubo (outro item para atrair a petizada aos cinemas), a sombria Medusa e o monstro Kraken ficaram na memória de crianças e adultos, que se deslumbraram na ocasião, apesar do mesmo roteiro chinfrim e de George Lucas já ter boquiaberto o mundo com sua “Guerra nas Estrelas”. Seu trabalho ainda é reverenciado por diretores como Steven Spielberg, George Lucas, Tim Burton e James Cameron, entre outros. O que faltou nesta “Fúria” de 2010, foi justamente a sensibilidade e a dedicação que existia em um tempo em que fazer cinema também envolvia paixão e talento, mesmo que fosse para puro entretenimento. 

SERVIÇO 
Fúria de Titãs (Clash Of Titans, EUA/Reino Unido, 2010) 
Direção: Louis Leterrier 
Elenco: Sam Worthington, Pete Postlethwaite, Mads Mikkelsen, Gemma Arterton, Alexa Davalos, Ralph Fiennes, Liam Neeson. 
Gênero: Aventura 
Duração: 118 min. 
Distribuidora: Warner Bros.

Assista ao trailer de "Fúria de Titãs"http://www.youtube.com/watch?v=4F9Oc5e4B8oAssista ao trailer de "Fúria de Titãs" (1981)http://www.youtube.com/watch?v=toy7sDPoMKs